Hoje, sempre que se fala do Estreito de Ormuz, o motivo é quase sempre o mesmo: petróleo. É por ali que passa cerca de um quinto do crude transacionado no mundo, e qualquer ameaça de bloqueio faz disparar os preços da energia e acender alarmes nas cancelarias internacionais.

Mas esta importância estratégica não nasceu com a era do petróleo. Há mais de 500 anos, Portugal já tinha percebido — e explorado — exatamente a mesma lógica geográfica, quando fez de Ormuz um dos pilares do seu império marítimo no Oriente.

Um estrangulamento natural, muito antes de haver petróleo

O que torna Ormuz estratégico não mudou desde então: é um corredor estreito — pouco mais de 30 quilómetros no seu ponto mais apertado — que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, funcionando como a única saída marítima de países como o Irão, o Iraque, o Kuwait, o Barém e o Qatar.

Quem controla este estreito controla, na prática, tudo o que entra e sai por via marítima de toda a região do Golfo.

No século XVI, o que ali circulava era diferente do que circula hoje — cavalos árabes, seda, especiarias, pedras preciosas e pérolas —, mas o princípio geográfico que dá a Ormuz o seu valor é rigorosamente o mesmo.

Porque Portugal precisava de controlar esta passagem

No início do século XVI, a Coroa portuguesa, sob D. Manuel I, tinha acabado de abrir uma nova rota marítima para a Índia, contornando África — a viagem pioneira de Vasco da Gama, em 1497-98.

O objetivo não era apenas chegar à Índia: era desviar para Lisboa o comércio de especiarias que, até então, passava pelas rotas terrestres controladas por intermediários árabes e venezianos através do Médio Oriente e do Mediterrâneo.

Para isso não bastava navegar até à Índia — era preciso fechar as alternativas à concorrência. A estratégia portuguesa passava por controlar os três principais pontos de estrangulamento do comércio marítimo asiático: o Mar Vermelho (via Adém), o Estreito de Malaca (na atual Malásia) e o Golfo Pérsico, cuja única porta de entrada e saída é precisamente o Estreito de Ormuz. Quem dominasse estes três pontos podia, teoricamente, controlar todo o comércio marítimo entre a Ásia e a Europa. Foi neste contexto que a atenção portuguesa se voltou para Ormuz.

A conquista de 1507 e a fortaleza que selou o domínio

Foi Afonso de Albuquerque, capitão-mor do Mar da Arábia, quem levou a cabo esta missão. À frente de apenas seis naus e cerca de 500 homens, chegou a Ormuz a 25 de setembro de 1507, depois de já ter submetido diversas cidades da costa do atual Omã.

Apesar de a cidade dispor de uma guarnição muito superior em número, a batalha naval que se seguiu terminou em vitória portuguesa, e o soberano de Ormuz aceitou tornar-se tributário do rei de Portugal.

O domínio, no entanto, não ficou logo consolidado: divergências entre os próprios capitães de Albuquerque, descontentes com as duras condições de vida na ilha, levaram a desistências e obrigaram os portugueses a recuar pouco depois de lançada a primeira pedra da futura fortaleza.

Só em 1515, já como vice-rei da Índia, Albuquerque regressou e impôs definitivamente a presença portuguesa, concluindo a construção do Forte de Nossa Senhora da Conceição — uma estrutura pentagonal, com oito torres, cujas ruínas ainda hoje são visitáveis na Ilha de Ormuz, no Irão.

A partir daqui, Ormuz tornou-se protetorado português, arrastando consigo o controlo de outras cidades do Golfo que lhe estavam subordinadas.

Ao longo do século seguinte, Portugal construiu outras fortalezas na região — como a de Barém, hoje Património Mundial da UNESCO — consolidando uma rede que assegurava a cobrança de tributos e a fiscalização de todo o tráfego marítimo que atravessava o estreito.

Mais de cem anos de domínio — e o fim, em 1622

Entre 1515 e 1622, Ormuz funcionou como um dos grandes pilares do Estado Português da Índia, garantindo a Lisboa uma posição de controlo sobre as trocas comerciais entre a Pérsia, a Índia, a Arábia e a África Oriental.

Foi também, ao longo destas décadas, palco de tensões constantes com o Império Safávida persa, que nunca deixou de contestar a presença portuguesa na região.

O fim chegou num contexto de crescente concorrência entre potências europeias na Ásia. O xá persa Abbas I aproveitou a rivalidade comercial entre Portugal e Inglaterra, oferecendo à Companhia Inglesa das Índias Orientais condições vantajosas em troca de apoio militar.

Persas e ingleses cercaram a ilha e, a 12 de maio de 1622, a guarnição portuguesa acabou por capitular. Portugal tentou ainda manter alguma presença na região a partir de uma nova base em Mascate, mas nunca recuperou o domínio que tinha tido sobre Ormuz.

Da especiaria ao petróleo: a mesma lógica geopolítica

Após a saída dos portugueses, Ormuz perdeu parte da sua relevância comercial direta — mas o estreito que lhe dá o nome nunca deixou de ser um dos pontos mais sensíveis do comércio marítimo mundial.

Mudaram as mercadorias — das especiarias e pérolas para o petróleo e o gás natural liquefeito —, mas não mudou o princípio geográfico que já em 1507 levou Portugal a fixar ali uma fortaleza: quem controla um estrangulamento marítimo, controla uma parte desproporcional do comércio que por ali passa.

Para quem trabalha em logística marítima, esta é talvez a lição mais duradoura da história de Ormuz: os pontos de estrangulamento — seja este estreito, o Canal do Suez ou o Estreito de Malaca — continuam a ser, séculos depois, zonas onde qualquer instabilidade tem impacto imediato nas cadeias de abastecimento internacionais.

A presença portuguesa em Ormuz, ainda que remota no tempo, faz parte dessa mesma história: a de um país pequeno que soube identificar, com mais de 500 anos de antecedência, um dos pontos mais decisivos do comércio entre o Oriente e o Ocidente.