Por volta das 22h00 (hora de Singapura) do dia 25 de junho de 2026, o porta-contentores EVER LOVELY, de bandeira de Singapura e operado pela taiwanesa Evergreen Marine Corporation, foi atingido por um projétil não identificado enquanto saía do Estreito de Ormuz, junto à costa de Omã.
A confirmação oficial veio da Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA), que esclareceu que o navio sofreu danos ligeiros na zona da ponte de comando, provocados por um projétil desconhecido, enquanto deixava o Estreito de Ormuz. A mesma nota confirma o mais importante: o navio já completou a travessia do Estreito de Ormuz e segue a sua viagem normalmente, com os 21 tripulantes a bordo todos em segurança. Não havia nenhum cidadão de Singapura entre a tripulação.
A MPA não poupou nas palavras ao classificar o sucedido: a autoridade manifestou-se profundamente preocupada com o incidente, que classificou como não provocado, injustificável e uma violação do direito internacional, sublinhando que qualquer ação que afete o transporte marítimo internacional deve cumprir integralmente a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e não pode colocar em risco a segurança de marítimos e navios no mar.
Um drone, segundo Washington
Embora a fonte oficial de Singapura fale em “projétil desconhecido”, os Estados Unidos foram mais específicos. Segundo a Associated Press, um responsável norte-americano afirmou que o navio mercante Ever Lovely foi atacado por um drone operado pela Guarda Revolucionária do Irão. O Irão não reivindicou formalmente o ataque.
A reação de Teerão chegou por outra via. Na sequência das notícias do ataque, a recém-criada Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico — um organismo iraniano estabelecido para controlar a navegação no estreito — escreveu nas redes sociais que o trânsito fora das rotas por ela designadas “não estará coberto pela garantia de passagem segura”. A mensagem confirmava avisos anteriores: a Guarda Revolucionária já tinha alertado, horas antes, que os navios deixassem de usar a rota pelo estreito sem autorização de Teerão.
O contexto: meses de bloqueio e uma frágil reabertura
Para entender a dimensão do incidente, é preciso recuar a fevereiro. O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo e gás natural transacionados por via marítima em todo o mundo — foi efetivamente fechado pelo Irão a 4 de março, na sequência de ataques dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos. Desde então, centenas de navios e milhares de marítimos ficaram retidos no Golfo Pérsico.
Um memorando de entendimento assinado entre Washington e Teerão na semana anterior ao ataque tinha reaberto, em princípio, a via marítima, abrindo um período de 60 dias para resolver os detalhes operacionais. O tráfego começou a recuperar lentamente: na semana anterior ao ataque, 125 navios cruzaram o estreito, face a apenas 33 na semana anterior, segundo dados da Lloyd’s List Intelligence — ainda assim muito abaixo da média diária pré-guerra de mais de 130 trânsitos.
Foi precisamente este equilíbrio frágil que o ataque ao Ever Lovely veio testar. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que se encontrava no Bahrein a reunir-se com os ministros dos Negócios Estrangeiros do Conselho de Cooperação do Golfo, tinha avisado horas antes do ataque: “Se isso parar, vamos ter um problema.”
O ataque trava o resgate de milhares de pessoal marítimo retido no Golfo
A consequência operacional mais imediata foi a suspensão de um plano humanitário em curso. A Organização Marítima Internacional (IMO) tinha lançado, apenas dois dias antes do ataque, um quadro de evacuação coordenada para retirar do Golfo Pérsico os navios e pessoal marítimo ainda retidos desde março.
O secretário-geral da IMO confirmou que o plano para retirar navios retidos no Golfo Pérsico através do estreito ficaria suspenso até que a agência pudesse confirmar garantias de segurança para os navios na lista de evacuação e na região. Um pormenor relevante: o navio atacado não fazia parte do esforço de evacuação coordenado pela IMO — seguia viagem comercial independente.
O que se sabe sobre o EVER LOVELY
O navio envolvido no incidente não é uma embarcação qualquer. O EVER LOVELY (IMO 9629110, MMSI 563033000) é um porta-contentores construído em 2015, com bandeira de Singapura. As especificações dão a dimensão real do que está em jogo nestas rotas: 334 metros de comprimento, 104.357 toneladas de porte bruto (DWT), 101.063 de arqueação bruta (GT), e capacidade para 8.508 TEU — o equivalente a mais de oito mil contentores de 20 pés.
Apesar do ataque, o navio concluiu a sua travessia em segurança e está agora a navegar rumo a Singapura, com chegada prevista para os primeiros dias de julho.
Uma rota disputada entre duas autoridades
O cerne do problema, que este incidente expõe com particular clareza, é a existência de duas visões incompatíveis sobre quem controla a navegação no estreito. De um lado, o Irão insiste que apenas as rotas por si designadas são seguras. Do outro, os Estados Unidos e os seus aliados regionais promovem um corredor alternativo junto à costa de Omã, coordenado com a IMO, como via legítima ao abrigo do direito internacional do mar.
Para armadores, operadores e seguradoras, o incidente do Ever Lovely é um lembrete de que esta disputa, por enquanto, não tem resolução clara — e que qualquer navio em trânsito pelo estreito continua exposto a um risco real, independentemente da rota escolhida.
A boa notícia, nesta história em particular, é a que mais importa: ninguém ficou ferido, e a tripulação está a salvo.
Fontes: Maritime and Port Authority of Singapore (MPA) · The Associated Press / NPR · gCaptain