O Acordo de Tarifas EUA-UE e o Impacto em Portugal
As tarifas dos EUA sobre os países da União Europeia são aplicadas ao mesmo tempo sobre todos os países que abrangem o território. Não existe uma tarifa dos EUA para cada país. As tarifas sobre Portugal são determinadas pelas pautas da UE.
Em 27 de julho de 2025, a administração norte-americana e a Comissão Europeia anunciaram um acordo que estabeleceu uma taxa de 15% sobre praticamente todas as exportações de bens da UE para os EUA.
No entanto, a situação mantém-se em evolução: o Supremo Tribunal dos EUA considerou ilegal o aumento de tarifas anunciado em abril de 2025 (“Dia da Libertação”), e Trump respondeu com uma nova tarifa global, mas os documentos oficiais apontam para 10%, não 15%.
Acresce que o Parlamento Europeu congelou o acordo comercial UE-EUA.
Portugal é muito dependente dos EUA?
A resposta curta é: moderadamente, mas menos do que os números brutos sugerem.
Em 2024, as exportações portuguesas de bens para os EUA atingiram um máximo histórico de 5.244 mil milhões de euros, o que corresponde a cerca de 1,9% do PIB, 6,7% das exportações totais e 23,2% das trocas com países fora da UE — sendo os EUA o maior mercado de exportação de bens fora da UE.
Mas atenção: apesar de as exportações de bens portuguesas para os EUA representarem cerca de 2% do PIB em 2022, o seu peso efetivo no PIB é de apenas 1%, uma vez que a produção também depende de inputs importados.
Ou seja, parte do que exportamos incorpora matérias-primas estrangeiras que “não contam” para a economia portuguesa.
No total, considerando efeitos diretos e indiretos (cadeias de valor): 2,1% da produção, 1,3% do PIB e 1,3% do emprego em Portugal dependem das exportações de bens para os EUA.
Quais os setores mais expostos?
Nem todos os setores são igualmente vulneráveis. O relatório do PLANAPP distingue dois tipos de risco:
Os maiores exportadores diretos para os EUA (em % da sua produção): derivados petrolíferos, indústria farmacêutica e produtos de borracha e plástico são os setores transformadores mais expostos ao mercado americano.
Mas o maior risco real para o PIB e emprego vem de outro setor: o setor têxtil, o segundo maior exportador nacional para os EUA, é o que mais explica a dependência total da economia nacional — cerca de 400 milhões de euros de valor acrescentado e 14 mil empregos em risco.
Porquê esta diferença? Os derivados de petróleo, apesar de serem a principal indústria exportadora para os EUA, têm um peso residual no PIB e emprego nacional devido ao elevado conteúdo importado da sua produção — basicamente, refinam petróleo que vem de fora, por isso o valor acrescentado em Portugal é baixo.
Setores indiretamente vulneráveis (que não exportam diretamente, mas fornecem quem exporta): a silvicultura, os metais de base e a indústria química revelam vulnerabilidades significativas através dos efeitos indiretos da cadeia de valor. Ao nível do emprego, destaca-se ainda a agricultura.
Portugal seria um dos mais afetados na UE?
Aqui a resposta é mais matizada. O economista belga Eric Dor, da IÉSEG School of Management, clarifica que a taxa média efetiva varia consoante a composição dos produtos exportados para os EUA por cada país, e que as isenções previstas no texto legal suavizam consideravelmente o impacto.
No âmbito do acordo comercial UE-EUA, Portugal apresenta a oitava menor taxa média de tarifas de exportação entre os países da UE — o que é relativamente favorável. Isso porque alguns produtos exportados por Portugal estão isentos, e Portugal exporta para os EUA poucos produtos sujeitos à tarifa mais elevada de 50% (aço e alumínio).
Aplicando-se uma tarifa de 15% sem isenções, Portugal seria o oitavo país da UE com maior agravamento — na ordem dos 6,5% — mas isso só aconteceria se os direitos aduaneiros abrangessem todos os bens. Com isenções, o impacto é bem menor.
O que ainda está por definir?
A grande incerteza atual: a lista de mercadorias isentas da tarifa global de 10% em vigor desde fevereiro de 2026 difere da lista de isenções estipulada no acordo UE-EUA de julho de 2025, o que traz grande incerteza. Também não se sabe se, para os países da UE, a tarifa básica sobre mercadorias não isentas será de 10% ou de 15%.
Em resumo
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Exportações PT para EUA (2024) | ~5,2 mil milhões € (≈1,9% do PIB) |
| Peso real no PIB (com efeitos cadeia de valor) | 1,3% |
| Empregos dependentes (direta e indiretamente) | ~66 mil |
| Setores mais expostos ao risco real | Têxtil, produtos metálicos |
| Posição de PT na UE (tarifa média efetiva) | 8.ª menor exposição |
A mensagem principal é que Portugal tem uma exposição limitada mas real, concentrada sobretudo no têxtil e em cadeias de valor industriais. A incerteza sobre quais as isenções aplicáveis é o fator mais crítico neste momento para perceber o impacto concreto.
Fontes:
17/11/2025 PLANAPP – Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas: A dependência da economia portuguesa face às exportações norte-americanas. Portugal no contexto das novas tarifas comerciais dos EUA
24/02/2026 Euronews: Portugal será mesmo dos países da UE mais afetados se Trump cobrar tarifa global de 15%?